quinta-feira, 19 de abril de 2012

PRÓLOGO



Trovões explodem, ressoando ao longe. Relâmpagos rasgam os céus. A força da natureza explode no firmamento. Uma chuva pesada cai, lavando todo sangue da terra. Sangue que eu derramei. Sangue de meus inimigos, minhas vítimas, minha caça. A água da chuva encharca minhas roupas e meus cabelos agora parecem formar um véu, o véu negro da morte sobre meu rosto. Não sei mais o que é água ou o que são lágrimas. Sou um assassino ou um caçador? Anjo ou demônio? Não sei o que distinguir o que é certo ou errado. Mas uma coisa eu sei: vou continuar meu caminho até que eles paguem pela morte de minha família. Minha espada é a minha alma. Minha armadura é meu corpo. Não irei para até o que último deste clã esteja morto!
Aperto o cabo de minha espada com tamanha força que posso sentir os detalhes dos entalhes de sua forjadura. Ao meu redor... corpos! São os corpos de mais de trinta guerreiros que vieram me deter. Toda sorte de guerreiros que o senhor deste local pôde arranjar estão agora aos meus pés! Mortos pela sede de minha espada: a Garra de Tigre!

Ouço o galopar de cavalos. Pelo estrondo, deve ser uma pequena brigada. Mais dez ou quinze que vieram atrás de mim. Empunho minha espada e fico frente a frente com minhas próximas vítimas. Conto treze cavaleiros. Todos com espadas e escudos. Embainho minha espada, trazendo–a para seu lugar seguro, seu lugar de descanso. Jogo meus cabelos para trás e com um pedaço de pano que rasguei de minha roupa, prendo–os em um rabo de cavalo. Assim, terei plena visão de meus inimigos, das minhas caças.
Todos olham horrorizados ao redor ao verem os corpos de outros jogados em meio à grama enlameada. Alguns foram desmembrados por minha lâmina. Outros, decapitados. Cinco descem dos cavalos com os dentes cerrados e prontos para o ataque. Não perco tempo! A explosão dos músculos de minhas pernas me proporciona um ataque veloz, sem dar chance de revidar aos meus inimigos. Três deles se preparam para me golpear com suas espadas retas, mas no último instante, dou um passo mais longo para a direita, me inclino para a esquerda, saco minha espada que ruge com sede de sangue. Sua lâmina rasga a garganta de dois ao mesmo tempo fazendo o líquido da vida esguichar como se fosse um chafariz escarlate. Aproveito o impulso inicial da espada e giro sobre o calcanhar esquerdo com minha espada apoiada na bainha e desfiro um golpe circular em outros três. Desta vez, são as cabeças que caem. O sangue espirra em mim. Meu rosto está ensopado. Uma mistura de sangue, água e lama. Os oito que sobraram me olham perplexos. Apesar de escuro, posso ver suas pernas tremerem diante de mim. Um relâmpago explode nos céus.
– Saiam daqui se não quiserem ir para junto de seus antepassados!- Esbravejo contra eles.
Outro relâmpago explode nos céus e clareia o local, exibindo minha fúria titânica. Olho com olhos serrados para eles. Meus dentes estão como os de um tigre a ponto de atacar suas presas.
– Não desejo matá–lo. Apenas desejo a cabeça do senhor de vocês. Saiam da minha frente... Agora!!
Os cavalos que eram dos que agora estão mortos, saem em disparada ao ouvirem meu rugido. Os outros cavalos derrubam seus cavaleiros e também fogem. Eles se levantam assustados. Eu começo a caminhar na direção deles. E eles dão passos para trás, com suas espadas empunhadas e pernas trêmulas. 
A chuva diminui e outro relâmpago corta os céus. E eis que surge atrás deles um homem empunhado uma espada cinza. Seus olhos brilham na noite. São como os olhos de um lobo. Os cavaleiros se viram e dois são mortos por um único golpe de sua espada. Eu o reconheço pelas descrições que outros me deram: é o senhor destas terras. Seu nome é Galmer. Com um olhar frio e maligno, ele se dirige para os cavaleiros.
– O que pensam que estão fazendo? Vocês vão fugir diante de uma reles assassino. Vermes! – Ele girou sua espada, o aço cantou e outros três corpos caíram. Os demais fugiram chorando e desapareceram na escuridão.
– Covardes! Depois eu os caçarei e os empalarei. Hah! Vermes!
O estranho parou diante de mim e me olhou de cima a baixo. Como se estivesse me estudando.
–Então foi você que acabou com a minha guarda pessoal? Quem é você, guerreiro?
– Meu nome não interessa, já que você vai para o inferno e lá, saberá quem sou.
Ele sorri de maneira estranha e malévola. A chuva pára. Mas as nuvens carregadas ainda estão nos céus. Relâmpagos dançam por entre as nuvens. Galmer dispara para cima de mim, empunhando sua espada. Posiciono–me na defesa, com os joelhos dobrados e segurando a espada na horizontal sobre minha cabeça para receber seu ataque.  Ele desfere um golpe de cima para baixo. Me esquivo para a direita e ataco com um golpe circular que o acerta em cheio nas costelas, que estão recobertas por grossas placas de ferro. Ele cambaleia. Meu golpe foi certeiro, mas sua força é grande e ele me acerta no braço com um chute giratório, me lançando alguns metros para trás.
Galmer era forte, mas arrogante. Ele inicia uma nova investida, desta vez segurando com as duas mãos sua espada. Não penso duas vezes e faço o mesmo. Parto na direção dele com a mesma velocidade com que havia atacado meus oponentes anteriores. O golpe de Galmer é na horizontal, um golpe pesado. Sua espada era grande e se chocasse com a minha certamente perderia minha espada. Então, no último instante antes da lâmina de meu inimigo me acertar, abaixo–me velozmente, com as pernas abertas e o peito rente ao chão. Sinto a lâmina fria passar próximo à minha cabeça. Senti o desequilíbrio de Galmer na tentativa de deter o curso de sua espada, mas já era tarde. Com um movimento veloz na vertical, iniciei o contragolpe com a espada na mão direita e logo uni ao ataque minha mão esquerda, dobrando a força do ataque. Minha lâmina entrou fundo na coxa direita de Galmer e o corte seguiu até se prender na bacia dele. Com a força de minhas pernas e dos músculos de minhas costas, tomei um forte impulso e o rasgo continuou até a garganta de meu inimigo. A armadura caiu, placas de metal tintilaram no chão e o sangue jorrou metros a fio. Galmer desabou sem emitir um único som, a não ser de sua goela tomada pelo sangue. O grande senhor destas terras caiu com um saco de batatas podres.
Minha vingança foi feita. Minha família pode descansar em paz.
Um forte vento surge do norte. Sinto um imenso calafrio subindo pelas costas. Algo estranho, sombrio. A luz prateada da lua surge em feixes através de aberturas por entre as nuvens cinzentas. Aos poucos o luar prateado vai clareando o local. Em certo ponto, no meio de uma clareira, surgem vultos brancos, envolto na luz da lua. Forço a vista para poder enxergar direito, entender o que são, mas o que vejo é assustador.
– Mãe! Lisa! Jeni! Lucas! Mas... como... como é possível que estejam... aqui!
Minha família. Minha mãe, minha esposa Lisa e meus filhos. Seus rostos estão baixos, mas sei que são eles. Posso sentir. Mas suas presenças não são de alegria. Mas eu derrotei o algoz de minha família. Assim sendo, eles deveriam estar em paz. Mas ao vê-los, sinto uma imensa lamúria, terror e medo.
– Lisa! Querida, Lisa! O que..?
Você não pode tocá–los. Eles não estão neste plano. Você não poderá tê–los de volta, a não ser que eu permita. –Um estranho homem surge das trevas com o rosto coberto por um capuz negro. Ele vem ao meu encontro andando calmamente e com as mãos uma sobre a outra por dentro das mangas.
– Quem, ou o que é você?
– Sou aquele a que possui as almas de seus amados. Você estava enganado, Dergel. Não foi Galmer o assassino de sua família, mas sim eu. Galmer era apenas um de meus lacaios. Um dos mais idiotas devo admitir. Meu nome é Terun, senhor das terras do extremo norte. As almas de sua família são de extrema importância para mim. Especialmente de sua esposa. Eles farão parte de meus planos para toda a terra de Lundahris.
Cego de ódio, parto em direção ao sarcedote sem pensar em nada! Ergo minha espada para desferir o golpe em sua garganta, para decapitá-lo. Terun apenas levanta a mão esquerda e uma luz prateada surge na palma de sua mão e um clarão em seguida. Não vejo nada, tudo fica branco. Ouço os prantos de meus filhos e de minha esposa.
– Desista, Dergel! Você nunca mais verá sua família!
Minha família. Meus filhos. Minha esposa. Tenho que encontrá-los. Preciso...
Minha mente se perde na escuridão do vazio. Não sinto meu corpo. Tudo está escuro. Tudo desaparece.

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